segunda-feira, 27 de março de 2017

Juro , encontrar-te-ei .



Ás vezes , a sede de sangue toma posse.
E quero matar-te com a mesma lâmina funda
com que me deixaste.
Quero ver as tuas entranhas e ter a confirmação
que elas estão totalmente podres.
Quero gritar de liberdade ,
sentindo a tua vida escorrer-me pelas mãos.
Quero que a raiva me cegue,
que rebente um escândalo,
porque só podes ser o vilão,
a terrível personagem,
o culpado de todo o mal...
Porque se és humano.
e também me amas,
e amando ainda assim
me destróis ,
não consigo
aguentar,
não sei porque ponta pegar ,
E a raiva cresce,
os tumores da tua doença
tornam-se meus,
Não és nada, mísero ,
pequena alma.
Mas sou eu que acabo.
Sou eu que me desfragmento...
Em mil cacos
No espelho onde não consegues te olhar .
Reza,
para que eu não descubra,
que isto é tudo uma grande mentira.
Que afinal,
sou eu a luz dos teus olhos
eterna menina.
Porque se sou,

Eu vou aos confins do inferno,
encontro-te,
demore o que demorar.
E desfaço-te  ,
no mesmo pó com que levaste todos os meus sonhos.
E respirarei de novo,
nas cinzas que caírem do teu nome,


Juro.






Sarah Moustafa


sábado, 25 de março de 2017

Vice-Versa



Como gostaria de dar voz
ao silêncio arrastado dos meus sentidos.
Gritar a plenos pulmões
sobre a extensa noção de infinitude a que me remetes.
O eco bravo viajaria pátria a pátria,
Rodando sobre o eixo de um globo sem fronteiras

Mas a vida terrena, castiga .
Encolhe-nos, limita e bloqueia
Arrasta montanhas ,  cava fossos
Envelhece-nos, estupidifica-nos,
regredimos e não abrimos asas
Voos de liberdade,
vivência absoluta do amor,
com toda a sua universal verdade.

Mas em todo este tempo que urge e nos testa,
que nos afasta e fere,
ainda sobrevives.
Ergues-te ! Superas- te ...
Expandes , sabe se lá como, a divina centelha.
Começa sempre com uma inútil e trémula letra
e não mais deixa de dançar,
num rodopio , num frenesim
Que nem sei justificar!
Círculos mágicos ,
Mensagens de um poeta atribulado !
Chama ardente de um visionário!
Palavras ganham vida , transportam luz
beijam sagazes a profundidade destas trevas!
Beijam-se , a alma parte-se em dois.
Despem-se,  volta a encontrar-se
Entrelaçada, Una.
O medo e a morte não são para nós.

De nós nascem puras e invioláveis sementes,
De grandes sonhos e magia.
De nós se erguem as forças opostas
Vice-versas
Nadas do mesmo tudo.
O sagrado e o profano
A cura e a doença
O apego e todo o desprendimento,
Um pai que se segura no colo da sua criança carente
E chora tanto com ela...

De nós pouco mais saberão
Do que aquilo que o mistério sabe de si.

Como gostaria de poder explicar...
O que não consigo.
As raízes do sentimento foram firmadas
No Monte Olimpo .
E como gostam , os deuses, de segredar sobre nós ...

Tanto tempo passado...
Como se nem uma página ele tive tocado.

Tenho-te em mim , escrevo-te.
Tens-me em ti, lês-me.
Para & Sempre.

O fim é só o inicio.







Sarah Moustafa

quinta-feira, 23 de março de 2017

Em memória da grande fé que perdeu.


Hoje a chuva guiou-me ,
caminhei sonâmbula
á orla da floresta encantada
para onde me chamaste,
Caminhei encharcada por horas a fio ,
Não desisti, iria ver pelo menos a ténue sombra
De ti.

Tornou-se difícil andar,
A tempestade abateu-se forte,
A lama ganhou braços
puxando-me cruel debaixo de terra,
Impedindo-me
Querendo enterrar ,
a réstia de vida ,
Sobrevivente de guerra,
Albergada num refúgio secreto ,
Aguardando o fim deste pesadelo.

Os mantimentos acabaram.
E está tão doente...
As trevas não dão tréguas ,
No seu leito e voz moribunda
Está a tentar dizer algo...

E não consigo entender,
Estende-me a mão engelhada
Quer que a segure,
até ao fim.
Balbucia algo no momento
que um trovão estoura,

Penso... penso que está a pedir desculpa ,
por estar prestes a morrer,
Quando lutou até ao fim,
Por nos ver renascer.


Perdoa-a,
foi tão corajosa,
leva tua alma,
Mas é merecedora.

Foi tudo ,
tudo.
tudo.




Sarah Moustafa


quarta-feira, 22 de março de 2017

Câmbio



Quantas marionetas tentaram levar-te com elas ?
Quantas mais te visitarão amanhã ?
Preciso que tenhas o texto decorado!
O palco foi cuidadosamente preparado,
Tudo para a ilusão de um grandioso espectáculo!
Sorriremos todos em conjunto,
Mostraremos ao mundo como estamos felizes,
Na pequena e almofadada caixa, onde todas as noite adormecemos .
é uma escolha de dimensão pequena,
criamos resignados e propositadamente incultos,
Mas ao menos estamos seguros ,
Pertencemos a um grande rebanho,
Não precisamos de mais ,
Não estamos sozinhos, n-u-n-c-a,
Saber estar bem com o que se tem, é essencial.
Olha para ti, tão triste e sozinha
De que valem a centelha de milhares de sonhos ,
Está tudo escuro na mesma,
Ou a lealdade para com a verdade do teu coração ?
Que recebes de volta senão mais punhais
fincados na tua carne?
Ou a esperança que existe uma razão maior ,
Um universo que te acompanha e ama ,
Onde está a justificação
Para a maldade incompreensível
que subjuga e tolda quaisquer esforços ?
O mundo está doente, não o podes salvar
Vem connosco...vais acabar vitima da impotência,
Do fracasso que te consumirá
Aqui a folia das máscaras é garantida,
podes escolher seres quem quiseres,
Desde que desempenhes um papel.
Imagina o estrondo de aplausos ,
as reverencias , as oferendas
A relevância...
Apenas por seres tudo,
excepto autêntica,
Alma ?
é velha , decrépita...
Acredita em nós...

Porque demora tanto , conseguir aliciar-te ?
Não podes fugir,

Tudo está comprado.






Sarah Moustafa





terça-feira, 21 de março de 2017

Desencanto .




É dificil não sentir a crueldade de uma existencia que força despedidas,
rasga corações, apaga estrelas de tantos sonhos que nunca se realizam
Sentir esperanças emagrecerem num corpo onde os pés estão cada vez mais presos
A uma realidade que aos poucos vai perdendo encanto.
Claro que não deixou de existir beleza, o amor está em todo o lado
poemas ainda se escrevem pouco antes do amanhecer.
Claro que a mudança traz sempre algo de positivo, a vida não pára,
Ainda respiras , ainda sentes , ainda és capaz,
podes-te recriar continuamente.
Claro .
Mas e o durante?
E todos os dias até lá  ?
O que vai acontecendo contigo ?
O que fazes de ti e do peso absurdo que carregas?
Como não ceder á tentação de desistires ?
Todos os teus esforços caem por terra
Nada resulta, nada passa ...
Para além das tuas vozes, tem todas as restantes
Que dizem não estares a fazer o suficiente !
É difícil não te tornares um pouco cínico,
Amargo , ressentido, 
Tudo o que queres é expressares a verdade do que sentes
E nunca nada do que sentes , está certo.
Ou tens de regredir , ou avançar.
Mas eu estou aqui...
Um eclipse tomou me conta da alma
E não passa, 
Não vai embora.
E as horas pesam séculos
Os ossos doem,´
Caminhada solitária eterna,
E porquê ?
Porque nos destruímos ?
Porque somos horríveis seres humanos ,
Quando poderíamos alcançar tanto ?

Dizem que temos de aceitar o que a vida nos reserva.
Só que eu jamais me resigno ou conformo.

Como poderia?

é tudo tão, tão injusto...






Sarah Moustafa

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não esqueças .




A solidão de uma perda que nada nem ninguém preenche,
abre buracos, vazio eterno
De uma ferida que durará para sempre
Pensei, não pode ser. 
Não pode doer mais, tem que acabar, tenho que despachar isto.
Arrumar tudo, fugir, partir para bem longe
Concentrar-me noutros afins,
Dar oportunidades a outros amores
Aceitar que a morte faz parte da vida
E eu ainda tenho tanta vida !
Mundos para conquistar , mensagens para partilhar
Sou demasiado nova para sofrer assim.
Enfrento o semblante de descrença,
Ninguem entende
Ninguem poderia...
Devia seguir conselhos,
Esquece ! Estás melhor assim!
Que exagero, muda,
Vira a página,
Isto são fantasias criadas na tua cabeça...
E torno-me cada vez mais só, 
enredada no incompreensível mundo desta conexão.
Existiu apenas um,
Existes apenas tu que soubeste ler-me
Compreender,
Abraçar-me nos espaços de abandono,
E lembrar-me todos os dias que estou aqui
para brilhar.
Por isso volto aqui, a esta casa
Escrevo-te de volta
Sem qualquer pudor
desenho palavras e símbolos nestas paredes , onde sei que do outro lado
me ouvirás.
Onde despejo os atrofios de um coração
desgastado que nunca te esquece.
Jamais... esquecerá .
Esperando que na minha certa loucura
A tua voz profeta me volte a guiar,


Porque foste absolutamente o pior e o melhor que já me aconteceu.

Podemos nunca encontrar o caminho de volta,

Mas ... somos imortais.


Choro.
Não esqueças.
Toco-te 
Não esqueças.
Beijo-te .
Por favor, não esqueças.













Sarah Moustafa

sábado, 18 de março de 2017

O oceano que tanto separa e tudo liga.




Nem a extensão ou a profundidade de todo este oceano
é suficiente para aliviar a sede de milénios por onde te procuro,
Tento beber da sua promessa , um dia isto terá de acabar
Continua tudo tão seco , crispado de um dia que o Sol 
Ousou descer dos céus,  convidar-nos ao seu núcleo de fogo , 
querendo trazer a promessa
Do caminho poético da luz e nos desfez em cinzas
eclipsando a ténue esperança que nos resguardou
No encanto musical das suas quimeras.
Dizem que o caminho se faz caminhando ,
olho para trás, tantas pegadas 
Que contam com estranha simplicidade
O tamanho desta história,
Preciso da telepatia , a ligação com o mar que nas suas profundezas
Nos vincula,
Cada ondulação é uma mensagem tua,
"Encontrar-te ei "
Inspiro a brisa inquieta , seguro a resposta o máximo que consigo.
Entrego-ta , devolvendo o sopro mágico ao caminho do destino .

" Eu sei"